O consumo diário de tokens de inteligência artificial na China chegou a 500 trilhões em meados de 2026, segundo reportagem da Exame assinada por André Lopes. O número representa um salto de 5.000 vezes em relação aos 100 bilhões de tokens processados por dia no início de 2024. O crescimento abriu espaço para que bancos, operadoras de telefonia e até cafeterias do país passassem a oferecer tokens de IA como benefício para atrair clientes, de forma parecida com milhas aéreas ou cashback no Brasil.
Um token é a unidade usada pelos modelos de IA para processar texto: cada pergunta feita a um chatbot é fragmentada em pedaços que o sistema interpreta para gerar resposta, e cada um desses pedaços tem custo computacional em eletricidade e chips.
Queda de preço destravou o consumo em massa
De acordo com a Exame, o salto no uso só foi possível porque o preço dos tokens caiu na mesma proporção em que o consumo disparou. Modelos chineses de código aberto custam de 60% a 90% menos que sistemas equivalentes da OpenAI e da Anthropic, mesmo ficando atrás em alguns testes de desempenho. Essa diferença de custo permitiu que empresas comuns, e não só desenvolvedores, passassem a empacotar e revender tokens para o consumidor final.
Token virou produto bancário, plano de celular e brinde
A reportagem descreve cinco frentes em que o token se tornou moeda de troca na China:
- Cartões de crédito: a startup Moonshot AI lançou em julho um cartão batizado de Kimi, em parceria com o Banco Agrícola da China e a American Express, que dá tokens como recompensa de gasto. Em junho, o China Merchants Bank já oferecia até 1,8 bilhão de tokens da MiniMax para novos clientes, e o Shanghai Pudong Development Bank chegou a subsidiar até 3 bilhões de tokens dos modelos Qwen, da Alibaba.
- Planos de celular: a China Telecom vende pacotes a partir de 9,9 yuans (cerca de R$ 7,50) por mês para 10 milhões de tokens, com uma plataforma própria, a TokenHub, que reúne assinaturas para 142 modelos. A China Mobile chegou a oferecer 400 mil tokens por 1 yuan (cerca de R$ 0,75) em Xangai, cobrados na conta de celular, e a China Unicom tem planos de 15 a 45 yuans (R$ 11 a R$ 34) voltados a uso empresarial.
- Brindes em bares e restaurantes: no AGI Bar, em Pequim, quem compra uma bebida e se conecta ao Wi-Fi ganha acesso ilimitado ao modelo DeepSeek V4 Flash, rodado localmente numa estação Nvidia DGX Spark. A casa de bolinhos Jingu Yuan distribui mais de 100 vales por dia, no valor de 10 yuans (R$ 7,50) em créditos de computação, e uma cafeteria 24 horas em Changsha usa estratégia parecida.
- Revenda em marketplace: no site de produtos usados Xianyu, do grupo Alibaba, vendedores oferecem pacotes de acesso a modelos de IA medidos em tokens, por meio de passes diários, assinaturas mensais ou contas compartilhadas, segundo a Exame.
- Garantia de crédito: no distrito de Haizhu, em Guangzhou, um produto batizado de “empréstimo de token” permite que bancos como Bank of China, China CITIC Bank e Bank of Guangzhou usem o volume de tokens produzidos e consumidos por uma startup como indicador para decidir o valor do empréstimo, no lugar do balanço patrimonial tradicional.
Por que importa
O caso chinês mostra o uso de inteligência artificial virando métrica econômica cotidiana, tratada como dado móvel ou linha de crédito. Se o padrão se confirmar como tendência, pode servir de referência para como bancos, operadoras e comércio em outros países venham a embutir IA em produtos de consumo massivo.
O que ainda não se sabe
A reportagem da Exame não traz comunicados oficiais de bancos, operadoras ou do governo chinês que confirmem de forma independente os números de consumo e os termos exatos dos produtos citados. Também não há, no material, informações sobre um fenômeno equivalente no Brasil ou previsão de quando algo semelhante poderia chegar ao país.
Fonte: Exame · 05/11/2026 · Veja o post no Instagram


